Cães sem Trela

Cães sem trela

Cães sem trela

Recentemente, em jeito de desabafo, alguém que frequenta uma escola de treino canino, dizia:

É triste quando vimos para uma escola para melhorar o comportamento do nosso cão, muitas vezes não sem sacrifício pessoal, e ao virar da esquina o nosso cão é atacado ou provocado por um cão solto.

Infelizmente, cães soltos na via publica, não são uma raridade mas sim uma triste realidade.
A causa para esta triste realidade está associada a negligência, ignorância, falta de educação, desrespeito pelos animais e por todos os que partilham um espaço comum.

É lamentável que um passeio com o nosso cão que deveria ser aprazível para ambos, seja muitas vezes um pesadelo e uma fonte de stress constante. Frequentemente, os donos, ao entenderem que o seu cão é naturalmente sociável com pessoas e animais, circulam na via publica com o cão solto.

Perante esta realidade, questiono:

  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de incomodar terceiros?
  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de incomodar quem receia cães?
  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de incomodar um cão que está à trela?
  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de incomodar um cão que está à trela e a ser alvo de um trabalho especifico?
  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de incomodar um cão que está à trela e pouco tolerante para cães desconhecidos?
  • Será que o facto do nosso cão “ser sociável”, dá o direito de se abrir a porta de casa para que o cão, sozinho, passei na via publica?

Na minha opinião, a nossa liberdade não se deve sobrepor à de terceiros, principalmente, quando podem estar vidas em jogo. Sim, vidas em jogo.

Se um cão solto e sociável pode ser alvo ou gerador de inúmeros problemas, o que se poderá dizer de um cão solto e não sociável. Tudo toma proporções maiores e mais graves.

Infelizmente, uma vez mais, a ausência de conhecimento leva a que alguns donos acreditem que o seu cão está controlado ou é sociável. Tão simplesmente, porque em momentos de pouca perturbação viram o seu cão obedecer ou mostrar indiferença ao “cão do vizinho”. A recorrente ausência de treino e generalização de comportamentos do cão, leva a que com facilidade o controlo fictício e a sociabilidade imaginária caiam por terra. Assim nasce o mito do cão teimoso, provocador ou vitima das circunstancias. No entanto, não passa mesmo de um mito já que a realidade e a verdade dos factos estão directamente associados à falta de conhecimento e a uma postura arrogante dos donos a qual é regada por uma grande dose de falta de civismo.

Será que quem passeia um cão solto na via publica conhece a legislação inerente?…Os poucos que a conhecem, em bom rigor, pouco se importam.

Vejamos o artigo 7º do DL n.º 314/2003, de 17 de Dezembro:

“Obrigatoriedade do uso de coleira ou peitoral e açaimo ou trela.

1 — É obrigatório o uso por todos os cães e gatos
que circulem na via ou lugar públicos de coleira ou
peitoral, no qual deve estar colocada, por qualquer
forma, o nome e morada ou telefone do detentor.

2 — É proibida a presença na via ou lugar públicos
de cães sem estarem acompanhados pelo detentor, e
sem açaimo funcional, excepto quando conduzidos à
trela, em provas e treinos ou, tratando-se de animais
utilizados na caça, durante os actos venatórios.

3 — No caso de cães perigosos ou potencialmente
perigosos, para além do açaime previsto no número
anterior, os animais devem ainda circular com os meios
de contenção que forem determinados por legislação
especial.

4 — As câmaras municipais, no âmbito das suas competências,
podem criar zonas ou locais próprios para a permanência e circulação de cães e gatos, estabelecendo as condições em que esta se pode fazer sem os meios de contenção previstos neste artigo.”

O caricato da realidade dos cães sem trela, faz com que aqueles que passeiam os seus cães com trela ( por respeito a terceiros ) muitas vezes sejam acusados de não soltar o seu cão por este não ser sociável ou obediente. Desculpem a linguagem mas…há pessoas mesmo estúpidas!

Pessoalmente, os meus cães tem testes de sociabilidade, provas de cão de companhia e, em alguns casos, provas de trabalho. A realização destes testes e provas é para garantir uma integração adequada do cão em sociedade, o seu controlo e garantir a sua estabilidade mental e física. Claro, para o fazer é preciso gostar de cães e perceber a sua essência. Passear o cão quando se vai ao lixo ou soltá-lo num descampado gritando “não tenha medo, ele não faz mal!…” é bem mais fácil.

Um dono que efectivamente goste do seu cão, não o solta de ânimo leve. Quando o faz, fá-lo em locais que ofereçam condições mínimas para o efeito como o campo, praias isoladas, etc. Ainda assim, só o faz quando é detentor de um grande controlo de obediência, especialmente, no comando de chamada. Igualmente, os cães devem estar dotados de indicies motivacionais elevados, direccionados para determinado tipo de objectos ( Ex: bola ) para que possam facilmente ser distraídos ou atraídos numa situação de maior perturbação envolvente.

Um cão solto pode ser vitima de um ataque de outro cão, provocar um ataque de outro cão, ser envenenado, perder-se, provocar um acidente de viação, ser atropelado, ser roubado, morder uma pessoa, derrubar crianças ou idosos, causar danos materiais, etc. Esta é a realidade que muitos donos não conseguem identificar e respeitar. Infelizmente, por que gostam menos dos seus cães do que aquilo que julgam gostar.

Quem não tem condições morais para ter um cão, faça um favor, não tenha. Para bem de todos!

Cláudio Nogueira
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4 comentários a “Cães sem Trela

  1. Carlos Pereira

    Concordo com algumas coisas e com outras, nem por isso.
    A pensar assim, há pessoas que não deviam sair de casa ou deviam andar de trela pois também nao são sociaveis. Eu também não quero ser incomodado por certas pessoas nos passeios.. Mas a socialização não pode ser só com quem queremos e como queremos. Parece-me que há aqui uma excessiva tentativa de controlo.

    Espaços para largar o cão…. era bom se os municípios criassem esses espaços. Mas não criam.
    Praia? Supostamente é proibido por lei durante a época balnear. com trela, sem trela, vivos ou mortos!!

    Claro está que há locais em que por questão de bom senso, não devem andar sem trela, nomeadamente em locais ou passeios perto de estradas. São dois segundos para um cão, mesmo bem treinado se meter debaixo de um carro..

    Mas não é questao de ausência de conhecimento. É a forma como cada um vê os seus animais, e lida com eles. Há quem os veja e use como ferramentas de trabalho, há quem os trate como pessoas.
    E temos de aceitar isso. Não somos todos iguais. Também deviamos ser todos esbeltos e saudáveis, mas não somos. A questão de incomodar terceiros, logo que não haja perigo, chama-se socializar. para o bem e para o mal. Ninguém gosta que o arrumador nos peça a moedinha. Mas eles lá estão e temos de lidar com eles.

    “Um dono que efectivamente goste do seu cão, não o solta de ânimo leve.” – Concordo plenamente, apenas acho que há mais do que, praia, campo ou lugares completamente isolados. Quem vive nas cidades, tem de encontrar esses lugares e ter atenção extra. Mas é possível fazê-lo sem ser extremista…

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    1. admin Autor do artigo

      Caro Carlos Pereira,

      Antes de mais grato pelo seu comentário.
      A intenção deste texto não é radicalizar ou tratar as “liberdades” de um cão de forma redutora. Bem pelo contrario.
      Infelizmente, de facto, as entidades competentes não criam grandes infra-estruturas publicas dedicadas aos cães. Ainda assim as que foram criadas em alguns locais, os chamados parques para cães, têm sido com regularidade uma fonte de problemas ( quezílias entre donos e cães ). Porque será?…

      No inverno as praias podem ser frequentadas e no verão há o recurso ao campo, entre outros.

      Comparações entre cães e pessoas, não é o caminho. Quando assim acontece, é de facto uma questão de conhecimento ( ou falta dele ) e bom senso. Um cão jamais substituirá uma pessoa como uma pessoa jamais substituirá um cão. Tão simplesmente porque não são comparáveis. Quando alguém trata um cão como um filho, está a cometer um erro grave. Sendo as necessidades de um cão bem diferentes, apenas se está a criar desvios comportamentais e stress no animal. Quando alguém trata uma pessoa como um cão, está a ser desumano. Simples.

      O direito à diferença é uma coisa, a falta de respeito é outra. O que está em causa não é se um cão é bonito, feio, grande, de raça ou sem raça definida. O que está em causa não é se as pessoas deveriam ser todas esbeltas ou terem os mesmos gostos. As diferenças, são positivas. Temos que as respeitar e aceitar. O que não se pode aceitar é porque alguém não é louro e de olhos azuis, não é puro. O que não se pode aceitar é alguém entender porque gosta do seu cão, este pode ter uma liberdade desmedida. Mesmo quando essa liberdade incomoda ou põe em risco liberdade de terceiros. Chama-se a isso respeito, dever cívico e democracia.

      Se for a países como a Bélgica e Holanda, verá que desde o chihuahua ao dobermann, na via publica, andam todos à trela. Verá que ninguém aborda os cães de terceiros sem a devida permissão. Verá que um cão que fica deitado à porta de uma loja, não é tocado por ninguém. Verá que se passear um Rottweiler, ninguém foge ou olha desconfiado. Verá que aos fins de semana as escolas de cães ( Pet ) e clubes de treino canino ( cães de desporto / Trabalho ) estão cheios. É uma questão cultural e uma questão de conhecimento sobre os deveres e obrigações de se ter um cão.

      Em Portugal compra-se ou adopta-se um cão por impulso. Escolhe-se uma raça, pelo aspecto estético. Ainda Hoje, recebi um telefonema de alguém que queria comprar um cão da marca Rottweiler…

      A realidade em Portugal, no que diz respeito aos deveres e obrigações inerentes à detenção de um cão, deixa muito a desejar. Esta é a minha convicção em função dos pedidos de ajuda diários que recebo, muitos deles, com contornos surreais e dramáticos. Cenários que se repetem por esse país fora, independentemente do estrato social a que as pessoas pertencem.

      Grato pela atenção.

      Cumprimentos,

      Cláudio M. Nogueira

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  2. Iris

    Esta manhá, no parque nas Caldas da Rainha. O nosso gruppo (5 pessoas e 3 cães à trela) viu numa distância uma mulher e 2 cães soltos. Um dos cães correu até o nosso grupo en tentou atacar um dos nossos cães, resultando numa pequena luta que felizmente conseguimos terminar. Entretanto a mulher colocou o outro cão à trela e também correu até nosso grupo, gritando o nome do cão solto (claro que o cão não respondeu). Ao chegar ela disse “não faz mal”…
    Dizíamos à mulher que é proíbido soltar cães no parque, e que existe lei em Portugal que (entre outros) diz que em caso de passear com cães soltos é preciso de usar açaime. Gritava à nós que só os nossos cães precisam de trelas e açaimes, e não os cães dela. Depois ameaçou que os cães dela facilmente podem morder/matar os nossos!
    Perguntámos a mulher se preferiu ligar a GNR para resolver a situação, ou se quis partir. Claro que quis partir, pensamos que ela bem sabe que temos razão.
    Uma experiência inesquecível…

    Responder
    1. admin Autor do artigo

      Boa noite,

      As suas palavras e indignação, são claras. Infelizmente, é a cultura que existe em redor dos cães em Portugal, onde as leis parece que servem para muito pouco.
      Grato pela sua partilha.

      Cumprimentos,

      Cláudio Nogueira

      Responder

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